domingo, 10 de abril de 2011

ARTIGO

01.12.2002
Brincadeiras e malabarismos verbais
Ler, falar, escrever e pensar – tudo é linguagem. Vivemos mergulhados num mar de palavras e nos acostumamos, desde pequenos, a olhar através delas para enxergar o mundo dos significados, da mesma forma que olhamos através da janela para observar a paisagem. Mas também podemos fixar nosso olhar na própria vidraça: em vez de procurar o sentido de uma palavra, examinamos os sons, as letras ou outros elementos que a constituem, e brincamos com eles. Um exemplo são os palíndromos: palavras como “anilina”, que podem ser lidas de trás para a frente com o mesmo resultado. Tanto em jogos infantis como a língua do P quanto em passatempos adultos como as palavras cruzadas e os acrósticos, a linguagem se revela um verdadeiro parque de diversões. Confira, a seguir, apenas algumas dessas infinitas possibilidades de se entreter, desafiando sua própria criatividade verbal.

Palíndromo
Palavra ou frase que pode ser lida tanto da esquerda para a direita quanto da direita para a esquerda – algo como um bilhete de ida e volta lingüístico. O nome tem origem grega: uma fusão dos elementos palin (“de novo”) e dromo (“percurso”, “circuito”). Há palíndromos em simples palavras (arara, oco, osso, matutam, ovo, mirim, radar) e em frases completas: “A grama é amarga” (Millôr), “Irene ri” (Caetano Veloso), “Assim a aia ia à missa” (Barão de Itararé), “Seco de raiva, coloco no colo caviar e doces” (Rômulo Marinho). De domínio público, temos “Roma me tem amor”, “Atai a gaiola, saloia gaiata” e o surrealista “Socorram-me, subi no ônibus em Marrocos”.

Spoonerismo
Assim é chamada a troca de sílabas entre duas palavras – como transformar “bola de gude” em “gula de bode”. O nome vem de William Archibald Spooner (1844-1939), desastrado reverendo inglês que ficou famoso por lapsos involuntários que produziam frases absurdas e engraçadas. Millôr Fernandes tem uma versão da fábula do bode e da raposa totalmente escrita em spoonerismos, intitulada A Baposa e o Rode.

Anagrama
Palavra criada com as mesmas letras de outra, em uma ordem diferente. O bom anagrama deve ter seu significado relacionado de alguma forma com a palavra original, muitas vezes com efeito satírico. Os nomes Alice e Belisa nasceram da recombinação das letras de Célia e Isabel, respectivamente. Para dar mais dois exemplos, é clara a intenção simbólica de José de Alencar ao batizar de Iracema – anagrama de América – a heroína de seu romance indianista, assim como é pura maledicência apontar que argentino é anagrama de ignorante.

Lipograma
Outro nome que vem do grego, combinando os termos lipo (“retirar”) e grama (“letra”). Eis uma definição lipogramática, com a exclusão da letra E: “Isto constitui um lipograma: uma oração, um parágrafo, um capítulo ou um livro todinho composto faltando um dos nossos símbolos gráficos; no caso atual, omiti a vogal situada após o D”. No século XVII, o espanhol Alonso de Alcalá escreveu cinco novelas de amor que omitiam, sucessivamente, as cinco vogais. O endiabrado escritor francês George Perec (1938-1982), membro do Ou.Li.Po (grupo dedicado a jogos verbais e literários), escreveu o romance La Disparition (O Desaparecimento) sem incluir uma única vez a vogal E, a mais usada em sua língua. Mas a brincadeira, como está implícito em seu nome, já era cultivada na Grécia Antiga.

Palavra-valise
Formada pela união de elementos de duas outras palavras, ela geralmente usa o início de uma e o final da outra. Nós trouxemos duas palavras-valises do inglês: bit (binary digit) e motel (motor hotel)e criamos outras como “portunhol” (português + espanhol) e “intelijumento” (inteligente + jumento). O genial escritor e chargista carioca Millôr Fernandes foi ainda além e se especializou em montar palavras-valise imaginárias (cartomente – uma adivinha que nunca diz a verdade) e em interpretar palavras comuns como se tivessem essa dupla construção: melancólica – dor de barriga provocada por excesso de melão; presidiário – indivíduo preso todos os dias.

Pangrama
Texto que utiliza todas as letras do alfabeto (do grego pan, “todas”, e grama, “letras”). Um bom pangrama deve usar o menor número possível de letras e não ser desprovido de sentido. Quem sempre se interessou por este tipo de jogo foram os tipógrafos e os professores de datilografia, preocupados em acostumar os alunos com a totalidade do teclado. No inglês, a frase the quick brown fox jumps over the lazy dog (“a lépida raposa marrom pula por cima do cachorro preguiçoso”) não é um exemplo perfeito, pois apresenta oito letras repetidas – mas seu simpático significado fez dela o exemplo mais conhecido de pangrama. Em português, fica um pouco mais fácil construir pangramas, porque o W, o Y e o Z não pertencem a nosso alfabeto oficial.
 


Fonte: Revista Mundo Estranho - www.mundoestranho.com.br  http://www.portalpedagogico.com.br/main.jsp?lumPageId=480F8D7C230A5B0901231054129734A8&lumI=gm5.SalaAula.detSalaAula&itemId=480F8D7C116B712F0111C253EAF53018    

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